quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Santo Sudário: entrevista com Dr Juan Francisco Espinosa






Juan Francisco Sánchez Espinosa, médico espanhol, pertence à Sociedade Espanhola de Sindonologia, ou seja, de estudos relacionados com a Síndone ou Santo Sudário. Há vários anos, além de estudar, ele dá conferências sobre o mais singular tecido da cristandade. Ele concedeu uma entrevista a ZENIT, nesta ocasião da nova ostensão do Sudário, em Turim.

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ZENIT: O que é o Santo Sudário?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: É um lençol funerário. Alguns autores afirmam, com base nos vários tipos de estudos que já foram feitos, que a sua origem remonta ao século I antes ou depois de Cristo, pelo tipo de estrutura que ele tem. Curiosamente, as medidas não foram sempre as mesmas, porque, ao longo do tempo, foi havendo várias sobreposições para sustentar o tecido. As medidas atuais são de aproximadamente 4,36m x 1,10m. O vocábulo grego “síndon”, que significa tecido, originou a palavra atual com que chamamos o Santo Sudário, a “Síndone” de Turim. E a sindonologia é o estudo desse tecido tão singular para toda a cristandade.

ZENIT: O que podemos ver na Síndone?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: Vemos uma imagem dorsal e frontal de um homem que foi morto mediante a crucificação. Vemos múltiplas feridas disseminadas por todo o tórax, pelo abdome, pelos membros superiores e inferiores, do que parecem açoites; lesões na cabeça, mais de 600 feridas. E também feridas de transfixação nos pulsos e nos pés.

ZENIT: Como o senhor descreveria a imagem que podemos ver na Síndone?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: Você precisa estar a mais de um metro e meio de distância para conseguir visualizá-la. Não se sabe onde começa e onde acaba. É uma imagem que se formou na superfície do linho de 4 ou 5 micras de profundidade por uma desidratação da celulose do linho; não existe nenhum resto de pigmento, como foi demonstrado em um dos exames feitos em 1978. É algo extraordinário, porque, com toda a tecnologia do século XXI, não somos capazes de saber realmente como a imagem se formou. Alguns falam dela como a imagem impossível, porque não tem explicação científica.

ZENIT: Também aparecem restos de sangue no Santo Sudário, não é? Que explicação pode existir?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: É curioso que o sangue seja prévio à formação da imagem. E é curiosíssimo porque algumas partes do tecido foram raspadas e ficou comprovado que não há imagem. Então podemos concluir que a imagem se formaria depois do sangue incrustado no tecido. O que sabemos é que se trata de sangue do grupo AB. Mais ou menos 16% da população semítica ou hebraica tem esse tipo de sangue. E, curiosamente, o sangue detectado no Santo Sudário de Oviedo também é do grupo AB. Um detalhe importante é que, no sangue, aparece uma grande quantidade de bilirrubina; e isso acontece quando a morte é causada por muito estresse.

ZENIT: Por que podemos dizer que o Santo Sudário é um “negativo fotográfico”?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: O primeiro que notou foi o fotógrafo italiano Secondo Pia, em 1898. Alguns estudos dizem que essa imagem pôde surgir por causa de uma radiação ortogonal; ou seja, que sai verticalmente do corpo e produz a imagem. É como se o corpo tivesse emitido uma radiação; mas, realmente, não se sabe exatamente como aconteceu.

ZENIT: Em 1988, foi feito o exame de carbono 14 e alguns opinam que o resultado não é determinante para precisar a idade do tecido. Por quê?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: Essa prova tem uma confiabilidade de 67% e a única coisa que ela faz é medir o número de átomos de carbono 14 que existem nesse organismo. O carbono é gerado pelos raios cósmicos que formam o nitrogênio. Deram quatro mostras do Sudário, mas todas cortadas do mesmo pedaço. E era o pedaço que foi chamado de “remendo fantasma”, porque nele existem misturas. Isso é um erro de metodologia, porque o lógico teria sido pegar vários pedaços de diferentes partes do Santo Sudário. Quando se diz que a Síndone é da Idade Média, é porque nas mostras que foram dadas às universidades que a estudaram havia tecido medieval mesclado com o tecido original. É o que acabou sendo chamado de “entretecido francês”, que é algodão tingido.

ZENIT: Que aspectos da imagem o senhor ressaltaria do ponto de vista médico?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: É uma imagem que me diz o tipo de morte que aquele homem sofreu; que ele teve um sofrimento brutal, que sofreu perfuração nos pulsos e nos pés. Isso tem que ter causado uma dor horrorosa, porque, provavelmente, atingiu o nervo mediano; por isso o dedo polegar ficou puxado para dentro. Também há mais de 600 lesões que devem ter causado no homem da Síndone um sangramento descomunal, com uma perda de sangue muito grande. Há lesões de chicotadas compatíveis com o “flagrum taxilatum”, que era uma espécie de chicote formado por tiras de couro terminadas nos chamados “taxil”, formados por pedaços de ossos ou de chumbo que se cravavam na carne; de fato, há pedaços de músculo que foram recolhidos do Sudário, na altura das costas da imagem. Deve ter sido um espancamento selvagem. Esse tipo de tortura podia destroçar a musculatura intercostal, lesionar órgãos internos, etc.

ZENIT: Alguns estudiosos também falam do pólen como prova de que a Síndone veio de Jerusalém, não é?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: Sim, porque, nos estudos, foi descoberto que muitas mostras de pólen que ficaram no tecido vêm da área de Jerusalém. Concretamente, quatro ou cinco espécies que são próprias da região do Mar Morto e de Jerusalém. Alguns pesquisadores judeus da Universidade Hebraica de Jerusalém, como Uri Baruh, concluíram que o Santo Sudário esteve em Jerusalém: na primavera e aproximadamente 2000 anos atrás.

ZENIT: O Santo Sudário é um milagre?
Juan Francisco Sánchez Espinosa: Para mim, sim, é um milagre. Eu acredito que Deus deixa rastros neste mundo e um deles é o Santo Sudário, porque não há explicação científica. O Santo Sudário interpela você porque, se é verdade que ele fala de Jesus Cristo morto e ressuscitado, o que a Igreja diz também é verdade e, portanto, você precisa mudar de vida. E se para você não interessa mudar de vida, então não interessa ouvir isto.


domingo, 3 de maio de 2015

O Sudário: não é pintura, não é escultura nem fotografia, é autêntico!




 O Papa Francisco vai visitar em junho deste ano, a Catedral de Turim, onde está exposto, novamente, o Santo Sudário, de 19 de abril a 24 de junho.


Um dos cientistas que o analisou, Barrie Schwortz, técnico em fotografia, a pedido da Igreja, sendo judeu e inicialmente cético, hoje é um dos maiores defensores da autenticidade e profundo conhecedor do Sudário.


Ele concedeu uma longa entrevista ao Catholic World Report, cujo link está aqui (original em inglês):


The Shroud: Not a Painting, Not a Scorch, Not a Photograph | Catholic World Report - Global Church news and views


A entrevista foi traduzida pelo blog Ciência confirma a Igreja, do Luís Dufaur, em duas postagens, leia a primeira e a segunda.


Barrie Schwortz disse que, inicialmente, não queria participar da análise do Sudário porque acreditava tratar-se de uma falsificação medieval, mas que 10 minutos após iniciar o trabalho, convenceu-se que não era uma pintura, como pensava, e ficou intrigado.


Outro ponto que o fez convencer-se da autenticidade é que o sangue do Sudário é vermelho, e o sangue exposto ao ar por muito tempo fica marrom ou preto. Intrigado, perguntou a um químico da equipe, Alan Adler, que lhe informou que o sangue do Sudário tinha alta quantidade de bilirrubina, o que explica a cor vermelha. O fígado de uma pessoa muito desidratada secreta altas quantidades de bilirrubina, o que torna o sangue vermelho para sempre.


Ele também declara, do alto de seu enorme conhecimento sobre o assunto: o Sudário é, literalmente, um documento da Paixão e da tortura que Jesus sofreu.


Algumas conclusões do autor ao estudar profundamente o Sudário:

  • O homem foi severamente açoitado. Isso se observa não só nas feridas nas
    costas, mas podem-se ver as tiras de couro que o atingiram, envolvendo o
    corpo, e que bateram pela frente também.

    De um ponto de vista forense, a imagem do Sudário fala mais do que as representações comuns que vemos na arte.

    Ele tem um ferimento de lança no lado. Suas pernas não estão quebradas,
    como era geralmente o caso quando os homens eram crucificados. Sua
    cabeça e o couro cabeludo estão cobertos de feridas.

    Mais uma vez: na arte muitas vezes vemos a coroa de espinhos como se
    fosse um pequeno círculo que se assemelha a folhas de louro em torno da
    cabeça de Cristo. Mas isso não é realista. Os soldados na verdade
    puseram um espinheiro sobre sua cabeça e o esmagaram sobre ela.

    Vemos a parte externa de uma mão, indicando que os pregos não foram
    cravados pelo centro da palma da mão, mas uma polegada mais perto do
    pulso.

    Ele era um homem bem constituído, que hoje poderíamos descrever como um
    homem belo. Tinha um busto forte, um peito profundo e ombros de bom
    tamanho.

    Isso faz sentido, já que era um carpinteiro. Naquele tempo ele tinha de
    ir para fora a fim de cortar uma árvore, serrá-la e dividi-la, coisas
    que exigem muita força física.

    A respeito de sua altura, é difícil dizer. Não há nenhum limite definido
    na imagem. O pano também pode ter sido afetado pela umidade ou
    esticado. Dito isto, o nosso melhor palpite é 1,78 ou 1,80 m de altura.

    Assim, ele seria um homem bem alto para a época, mas não tão alto que os
    escritores do Evangelho tivessem mencionado o fato. Na verdade, temos
    os restos de judeus da época que mediram mais de 1,83 metros.


 Ao contrário do que muitos querem dizer, não há como refutar a autenticidade do Sudário. De qualquer ponto de vista, o Sudário é assombroso, maravilhoso, perfeito. Mão humana nenhuma conseguiria fazer tal maravilha.

Para saber mais:

http://www.lepanto.com.br/catolicismo/ciencia-e-fe/provada-a-autenticidade-do-santo-sudario/


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!


sábado, 25 de abril de 2015

Que mundo é este, meu Deus?





A imagem que ilustra este texto correu o mundo há algumas semanas e me tocou profundamente, ao ver o quanto a maldade humana pode ir longe: uma criança que vive em tal estado de medo e temor que confundiu uma câmera fotográfica com uma arma e prontamente fez mãos ao alto...

Exatamente um ano atrás, escrevi outro texto neste mesmo tema por causa de outra foto de criança sendo ameaçada por armas, simplesmente por ter pais cristãos – leia aqui.

Todos os dias, vemos atrocidades cometidas contra pessoas inocentes, como as mortes de cristãos, apenas por ser cristãos, pelo auto intitulado estado islâmico, que instaurou o terror no oriente médio e continua a fazer mortes e espalhar o medo naquelas populações.

Pelo mundo afora, vemos guerras fratricidas que sempre produzem vítimas inocentes, como a guerra entre separatistas russos e ucranianos, que além das inúmeras vítimas locais, ainda atingiu um avião comercial que passava por ali e matou 295 pessoas.

Neste ano, estamos lembrando os 100 anos do genocídio dos armênios, lembrado pelo Papa Francisco, que causou a morte de milhares de pessoas.

Aqui no Brasil, recordes diários de violência, mortes e mais mortes no trânsito, assassinatos, pessoas que morrem em hospitais porque falta tudo, por culpa dos governantes de todas as esferas, que só estão interessados nos próprios bolsos... e os escândalos de corrupção se multiplicam, e parece que não está acontecendo nada no governo, vistas as atitudes dos governantes, os nomeados e as negociatas que seguem para livrar a própria pele e seguir em frente...

Está faltando amor ao próximo, respeito ao diferente e às diferenças, tolerância, paciência, caridade, humanidade... parece que a mensagem de Cristo foi totalmente esquecida e relegada a mera filosofia, que se poderia jogar fora, como se fosse descartável...

Por fim, uma mensagem de esperança: Hymne des Fraternises, interpretada por músicos espanhóis do grupo Solimusic Voces para la Paz, que fazem um trabalho voluntário belíssimo. Esta música foi tema de um filme belíssimo, Joyeux Noel, e versa sobre a fraternidade, o respeito, o amor...



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Notícias ruins sobre AIDS em 2015





Novamente a AIDS volta a ser notícia ruim no Brasil. Depois da divulgação pelo Ministério da Saúde em 2014 que houve aumento de 11% dos novos casos de AIDS no Brasil, principalmente entre homossexuais, o jornal Estado de São Paulo publicou este fim de semana uma reportagem preocupante, mas que infelizmente não é novidade para quem trabalha com HIV e AIDS: é sobre o bareback, que significa, literalmente, “o perigo que vem por trás”.

A reportagem mostra que, espalhados em sites e blogs pela internet e presentes em saunas e casas de sexo, grupos de homens soropositivos de diversas partes do Brasil têm usado táticas para infectar parceiros sexuais propositalmente. Adeptos da modalidade bareback, na qual gays fazem sexo sem camisinha, eles têm compartilhado dicas de como transmitir o HIV sem que o parceiro perceba. A prática é considerada crime e tem causado preocupação na área da saúde e também no meio LGBT.
Na web e nas baladas, os barebackers formam o "clube do carimbo". Em blogs, compartilham diferentes técnicas para fazer sexo sem proteção ou furar a camisinha. Fotos e vídeos ilustram o "passo a passo".

Infelizmente, apesar de todo o arsenal de diagnóstico e terapia que dispomos hoje para o enfrentamento do HIV e AIDS, ainda há muito preconceito e desinformação sobre a doença. Além disso, a falsa sensação de segurança trazida pelo tratamento antirretroviral e o virtual desaparecimento dos pacientes magérrimos pela doença na mídia faz com que as pessoas se descuidem da prevenção e continuem a fazer sexo sem proteção, com multiplicidade de parceiros.

É preciso coragem dos pais e educadores para a conscientização dos nossos jovens sobre sexo seguro, castidade, valorização do próprio corpo e, infelizmente, a aprender a defender-se da maldade de quem pratica este tipo de ação criminosa, entre outras.

Que Deus nos ajude nestes tempos tão difíceis em que vivemos...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Moderação e serenidade pelo Dr Marco Bobbio





MODERAÇÃO E SERENIDADE

Jornalista: Adriana Dias Lopes

29/11/2014 - Marco Bobbio, de 63 anos, dirige um dos centros de referência em cardiologia da Itália, o hospital Santa Croce e Carie di Cuneo, no Piemonte. Ele se notabilizou entre os colegas de todo o mundo por ter colocado na dimensão correta a atual obsessão pela preservação da juventude a qualquer custo. Do pai, o filósofo Norberto Bobbio, morto em 2004, um ícone do pensamento liberal e da defesa dos direitos individuais, Marco herdou a inteligência e a ironia cortante com que postula suas teses. "Meu pai dizia que o homem de cultura é aquele que valoriza a dúvida. É o que faço diariamente exercendo a medicina."

Antes de embarcar para o Brasil, onde lançará nesta semana o livro O Doente Imaginado, Marco Bobbio falou a VEJA, por telefone, de sua casa em Turim.

A medicina preventiva é um ramo com muitas histórias de sucesso para contar, mas ainda não o convenceu totalmente. Por quê?

Há um exagero nas medidas que visam a evitar o aparecimento das doenças. O médico deveria intervir menos e esperar mais o curso natural das coisas. Acredito nas intervenções em situações agudas, como no caso do paciente vítima de um infarto ou um derrame. Desconfio um pouco das medidas de longo prazo. Os tratamentos da medicina moderna fazem com que as pessoas vivam mais. Vive-se mais, mas não se vive tão bem. São pouquíssimas as pessoas que chegam a uma idade avançada sem problemas. A vida se prolongou. Mas o mal-estar associado ao envelhecimento também. Não há cura para esse mal-estar. É o que chamo de "paradoxo da medicina". Vejo pessoas com 85 ou 90 anos dizendo que estão cansadas. Elas estão mesmo, é idosas.

Como harmonizar sua tese com a promessa da medicina de fazer pelo paciente tudo o que estiver ao alcance?

Os cuidados preventivos podem levar uma pessoa até os 90 anos com o sistema cardiovascular funcionando muito bem. Mas eles não eliminam por completo todos os problemas associados à idade avançada, como a dificuldade de locomoção, a perda de memória, o cansaço. A tecnologia dos exames e o aprimoramento dos medicamentos são dois dos muitos recursos capazes de manter uma pessoa viva por muito mais tempo, mas ainda não foi possível desenvolver mecanismos que possam proporcionar qualidade de vida aos pacientes em idade avançada.

Uma mulher de 50 anos descobre no check-up anual que tem um câncer de mama em fase muito inicial. Nessas circunstâncias, a probabilidade de cura ultrapassa 90%. Sem medidas preventivas ela estaria condenada, não?

O rastreamento do câncer de mama é um dos poucos exames que têm provado sua eficácia preventiva. Nesse caso hipotético, é inegável que a prevenção foi decisiva. O problema é quando os médicos não respeitam os valores e as necessidades do paciente, acreditando que o que eles oferecem é sempre o melhor. Não se pergunta nem mesmo o que o paciente quer. Muitas vezes a questão é dar a ele o direito de não seguir um determinado tratamento, se essa for a sua vontade.

Conhecer o risco de desenvolver uma doença, por menor que ele seja, não ajuda o paciente a organizar a vida?

Isso seria verdadeiro se, ao descobrirmos a doença, fôssemos capazes sempre de eliminá-la. Raramente é possível mudar a história de uma doença, esse é o ponto. As dificuldades começam pelos exames que identificam o problema. Os pacientes acreditam que os exames dão sempre uma resposta definitiva. O tumor é benigno ou maligno? A placa de gordura vai se expandir ou não? Todo e qualquer exame tem o chamado resultado falso negativo ou falso positivo. No caso do falso negativo, o paciente vai para casa tranquilo, quando, na verdade, pode ter mesmo um câncer. Ou então. quando o exame confirma a doença, o paciente se submete a inúmeros procedimentos invasivos e, possivelmente, a um procedimento mutilador. Há um excesso de determinismo na prática da medicina atualmente.

Um em cada cinco exames, em média, dá resultado falso positivo ou falso negativo. Esse número é altíssimo, não?

A taxa de falsos positivos e falsos negativos depende do tipo de exame, da forma como ele é aplicado e das condições de sua realização. Uma regra para saber se vale a pena se submeter a um exame de detecção precoce é conhecer os dados globais de sua eficácia. A mamografia e a colonoscopia, que detecta o câncer colo retal, têm sua eficácia comprovada por esse critério.

A expectativa dos pacientes em relação à medicina é demasiadamente alta?

Sim, e essa postura é alimentada pelos próprios médicos. Não é incomum ver profissionais renomados declarar para revistas, jornais e televisão sua onipotência, divulgando feitos extraordinários. Por exemplo, o cirurgião que recuperou um paciente em condições desastrosas depois de uma operação de dez horas de duração. Claro que isso pode acontecer. Mas não é o comum. Esse médico, então, passa a ser visto como um salvador, quase um ente divino. Pode acontecer também de um paciente morrer na mesa de cirurgia ao ser operado de apendicite. Também é incomum. Excluindo-se aqui o erro médico, há o imprevisto, a fatalidade. O imponderável. Saber lidar com isso é saudável porque faz o médico não se sentir Deus — e errar menos. A medicina não é uma ciência exata. É uma ciência biológica que tem de lidar com características muito particulares e complexas.

Qual o pecado mais evidente dos médicos atualmente?

Os médicos estão muito arrogantes, impondo seu ponto de vista a todo custo. Parte da culpa é das sub-especializações médicas, um fenômeno recente na medicina. Elas são necessárias para a compreensão mais aprofundada de uma doença, mas, quando o médico se concentra em uma pequena porção de uma determinada afecção, passa a ver o paciente de forma fragmentada. Os médicos atualmente só sabem falar de questões referentes às suas subespecialidades. Não do paciente. A postura dos especialistas é comparável à dos socialistas, para quem só há uma única solução para um problema — ela é perfeita, e não tem discussão. Hoje em dia, exames e tratamentos são determinados pelos estudos científicos, sem maiores reflexões. Se um paciente sofre um infarto em São Paulo, em Nova York ou na índia, é tratado basicamente da mesma forma. São, evidentemente, boas abordagens, mas que funcionam bem com a média da população. Quando o paciente procura ajuda médica, ele é um indivíduo, não uma média — é único. Parece chavão, mas pensar assim faz uma diferença brutal. Cada paciente tem uma história que deve ser levada em consideração. E isso implica, muitas vezes, não seguir as diretrizes médicas. Há os que querem se submeter a tratamentos menos eficazes, mas menos invasivos. Há os que simplesmente não querem prolongar a vida com má qualidade. A decisão deve ser primordialmente do paciente. Sempre. E, quando ele não tem mais condições de decidir sobre o fim da vida, cabe aos parentes fazê-lo.

No fim da vida, doente, seu pai, o filósofo Norberto Bobbio, não foi submetido a nenhum tratamento extraordinário. Foi uma decisão sua?

Em outubro de 2003, meu pai completou 94 anos em condições bastante boas. Fisicamente ele estava um pouco limitado. Já não saía de casa, conseguia, no máximo, caminhar do quarto para o banheiro ou para a sala. Mas se locomovia sozinho. Festejamos o Natal daquele ano em sua casa. Foi uma alegria. Dois dias depois, porém, ele pegou uma pneumonia. Com dificuldade para respirar, teve de ir para o hospital. Lá, foi tratado com antibióticos, antitérmicos e recebeu oxigênio. Recuperou-se e retornou para casa. Em 06 de janeiro de 2004, li os jornais para ele, que compreendeu tudo. No dia seguinte, piorou drasticamente. A febre voltou, seu estado geral se agravou. Dessa vez teríamos de tomar a decisão se seria ou não entubado e submetê-lo a alimentação artificial. Eu disse não. Pensei comigo: até pouco tempo atrás ele teve uma vida maravilhosa. Mas, viúvo há três anos, se sentia só e estava deprimido. Nos últimos meses, repetia com frequência a expressão latina taedium vitae para dizer que estava cansado da vida. A partir daquele momento, foi indo embora devagarinho, apenas com o suporte médico para controlar o mal-estar causado pela doença. Mesmo assim, quando o coração dele começou a bater mais fraco, as enfermeiras me olharam aflitas e perguntaram o que deveriam fazer. Nada, respondi. No dia 9 de janeiro ele se foi.

Como o médico pode saber com segurança a hora de interromper o tratamento?

É muito difícil, independentemente da situação do paciente. Trata-se sempre, repito, de uma decisão que deve ser tomada com o paciente ou com seus parentes. Mas sempre tento seguir a lógica de um movimento médico nascido na última década chamado Slow Medicine, do qual faço parte. O lema é praticar uma medicina o menos invasiva possível, que respeite a vontade do paciente.

Como o senhor cuida da própria saúde?

Tomo um copo de vinho por refeição, como muita verdura e consumo pouca carne, pouco sal e pouco açúcar. Sei que o vinho faz bem ao coração, o excesso de carne aumenta o risco de câncer de intestino, o sal está associado à pressão alta e o açúcar ao diabetes. Mas não me escravizo por isso. Se vou à casa de amigos e lá há um doce gostoso, como com muito prazer. Se o vinho é bom, bebo mais de duas taças, claro. Faço caminhadas apenas quando posso. E sempre de forma prazerosa — em meio às montanhas do Piemonte. Dou risada quando vejo as pessoas correndo em esteira.

O senhor faz check-ups?

O único exame que já fiz na vida foi o do sangue oculto nas fezes, para investigar possíveis lesões intestinais. Esse é um dos poucos exames que de fato conseguem predizer a existência de uma doença. Nem o PSA, o marcador para o câncer de próstata, eu fiz. Não é uma forma tão eficaz de detecção quanto se pensava. Alguns institutos canadenses excluíram recentemente a indicação desse exame, e espero que outros lugares façam o mesmo. Não tomo remédios. Nunca fiz um exame de coração.

0 senhor não tem medo de ter um infarto, para o qual pode estar caminhando sem sinais aparentes?

Claro que sim. Mas não vejo vantagem em fazer um exame se me sinto muito bem. Tenho 63 anos e, certamente, minhas artérias não são as de um garoto de 20. Sei que posso ter uma lesão. Sei também que, seguramente, os exames e os procedimentos médicos não vão me garantir uma sobrevivência serena. Prefiro viver sem saber. Em minha opinião, não faz sentido eu me sentir bem e ir ao médico para tentar saber quando vou estar mal.

0 que seus pacientes acham de suas opiniões?

Os que discordam não voltam mais. Posso lhe garantir que a maioria volta.

O que o senhor aconselha a quem está bem de saúde e quer se conservar assim?

Tente levar uma vida serena. Não tenha como objetivo chegar aos 70 anos com o mesmo vigor que tinha aos 50. Desfrute a vida e não se prive de prazeres. Hoje, quando as pessoas se reúnem à mesa com os amigos ou com a família, não dizem mais se gostam ou não de determinado prato, mas se podem ou não comê-lo. Isso significa invariavelmente comer mal. Deve-se comer um pouco de tudo. Inclusive quando se está doente. Aqui os médicos pecam novamente. O paciente que sofreu um infarto vai ouvir da maioria dos especialistas a recomendação de eliminar a gordura do prato. Eu não concordo. Recomendo a meus pacientes que comam queijo, mas não um queijo qualquer. Escolham um produto de excelente qualidade, mesmo que ele custe mais. Toda noite se deliciem com um pedacinho dessa maravilha, deixando que ele derreta na boca bem devagar. O mesmo vale para todo tipo de alimento, seja salame, vinho, sal ou açúcar. Comam com moderação e vivam com serenidade. Não existe receita melhor de saúde.